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Dores, brigas e mágoas: os bastidores da derrota da Seleção para a Argentina em 1990

Paulo Angioni, atual gerente do Fluminense, conta pela primeira vez tudo que viu de perto no Mundial da Itália. Teixeira queria tirar Lazaroni ainda durante a Copa América de 1989

Desafogar um pouco é bom.

No minuto 46 de longa conversa sobre o time formado em 1989 e que terminou fora da Copa de 1990 para a Itália saiu este alívio de Paulo Angioni. Atual gerente de futebol do Fluminense, o antigo profissional do futebol era supervisor da CBF e conciliava à época o departamento de futebol do Vasco e a seleção brasileira.

Maradona domina a bola com a canhota e Ricardo Gomes, capitão do Brasil, o acompanha — Foto: Etsuo Hara/Getty Images

De modo discreto, acompanhou tudo de perto – desde o título da Copa América um ano antes até a classificação para as eliminatórias – e guardou antigas confidências.

Três décadas atrás, Maradona arrancava, passava por Alemão, Dunga e Ricardo Rocha para deixar Canniggia na cara de Taffarel. No dia 24 de junho de 1990, o sonho do tetra era adiado mais uma vez.

Angioni, ao lado de Nelsinho Rosa e Lazaroni e com Mauro Galvão, foi supervisor da Seleção em 1989 e 1990 — Foto: Arquivo pessoal

Em entrevista por telefone, que você pode ouvir no podcast “A sexta estrela”, Angioni não deixa escapar nada. Conta detalhes de bastidores inéditos, tais como:

  • A vontade de Ricardo Teixeira de demitir Lazaroni ainda na Copa América.
  • Os valores da discórdia da premiação da Pepsi, que virou motivo de briga e desconfiança.
  • O desgaste provocado pela presença de Nilton Petrone, o Filé, com Romário na Itália
  • A confissão de Maradona para Careca

– A gente não tinha energia suficiente para vencer. Aquilo foi mostrado com muita sabedoria, das coisas maiores, que estão acima da gente – reflete Angioni, tratando não da energia de força física, mas de forças abstratas daquela equipe, base do time campeão em 1994.

Lazaroni no banco de reservas na partida contra a Argentina — Foto: Reprodução

Escolha de Lazaroni

– A passagem do Lazaroni pelo Vasco foi determinante para ele ir para a Seleção. Na realidade, o treinador convidado inicialmente era o Parreira. mas ele declinou por razões dele. Não estive nessa conversa, foi Eurico com ele. mas ele era o indicado. Então, chegou-se a conclusão de que Lazaroni seria o treinador ideal. Ele já tinha convivência com a gente, conquistou estadual de 1986 pelo Flamengo e de 1987 e 1988 pelo Vasco. Três títulos consecutivos do estadual que naquela época tinha peso muito grande.

O caso Charles

– Lazaroni fez Copa América de altos e baixos, marcado por muitos questionamentos dentro da Bahia. Houve uma situação muito desagradável. Na época o Paulo Macarajá presidia o bahia e ele foi dentro do hotel Quatro Rodas e tirou o Charles da concentração. De forma assim impetuosa. Falou comigo: “estou levando ele agora porque isso é um absurdo”, porque não tinha sido relacionado.

A famosa foto: na Granja, jogadores esconderam símbolo da Pepsi na pose oficial para a Itália — Foto: Reprodução

Lazaroni por um fio

– No mesmo dia do Charles aconteceu outro fato marcante. Eu estava dormindo, na madrugada, e o Eurico me ligou pedindo para eu ir ao encontro do Ricardo. Eles estavam no antigo Meridien, no Rio Vermelho, bem distante de onde estávamos. “Não tem lógica ir aí agora, Eurico, são duas da manhã, estou dormindo”. Ele insistiu, mas não fui. No dia seguinte, acordei e bati no quarto do Eurico cedo. Ele tinha recém chegado, toquei lá umas 7h30, 8h, e Eurico me disse “Paulo, não adianta mais não”. Mas fomos juntos lá. Tivemos discussão grande, o Ricardo questionava uma série de coisas, eu fazia um contraponto. Queria tirar o Lazaroni, disse que ele que era o presidente da CBF, que não estava ali fazendo terapia comigo. Lá pelas tantas, toca a campainha.

Na ocasião tinha tido intervenção na Federacao Bahiana de Futebol, tinha sido colocado uma pessoa como interventor (Antonio Pithon, falecido em 2015). Eu já achando que o tinha convencido, ele perguntou ao cara, “você no meu lugar manteria ou tiraria o lazaroni?”. O cara olhou e falou: “eu manteria”. Olhei para trás e vi que era o interventor da Federacao Bahiana. Era um enviado de Deus. Ou seja, eu acho que ele perguntou ao cara tendo a certeza que o cara ia tirar. Mas houve essa resposta. Na época acho que ele queria o Leão para o lugar do Lazaroni.

Ricardo Teixeira assumiu a CBF no dia 16 de janeiro de 1989. Preferia Parreira, mas escolheu Lazaroni como segunda opção — Foto: Getty Images

Relacionamento

– Relacionamento foi muito ruim dali em diante. Eles (Ricardo Teixeira e Lazaroni) se afastaram e nem se falaram mais. Azedou ali. Ricardo se afastou e não se relacionava diretamente. Críticas ao Lazaroni foram muito pesadas, coisa que não se faz. Foi um todo, crítica muito pesada da imprensa, que resultou em grande rejeição.

Injusta era Dunga

– Ele ficou muito marcado. E era um belo jogador. Eu o conhecia porque tinha trabalhado com ele no Vasco. Sempre foi muito bom. Hoje quem criticava consegue enxergar tudo o que fazia, o primeiro passe muito preciso. A visão lateral e de profundidade. Acho que ele e Lazaroni foram muito marcados, quase a nível irracional. Isso até hoje me traz tristeza muito grande.

O caso Pepsi

– A direção da CBF era jovem, não de idade, mas de conhecimento e de prática. O Ricardo não tinha experiência de esporte, eu não o conhecia. Sabia que era genro do João Havelange. Isso trouxe problemas. O contrato da Pepsi, o primeiro sponsor da CBF, ali já próximo da Copa, gerou constrangimento muito grande. A primeira informação passada era de um valor do contrato. O contrato inicialmente era de US$ 1 milhão e os jogadores tinham 20%. US$ 100 mil pagaria no Brasil e mais US$ 100 mil na Itália. Essa informação foi passada ainda pelo Eurico na CBF. Só que a informação veio truncada, o contrato era maior. Houve pressão para que se visse o contrato e era o dobro do que tinha sido dito antes. Era de US$ 2 milhões e os jogadores ficaram chateados com aquilo. Houve estímulo e colocaram a mão em cima do patrocinador. Fomos para a Itália com clima de desconfiança.

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“Não queriam discutir dinheiro”

– Grande parte daquele grupo tinha saído do Brasil. Tinham idade mais avançada e tinham finalidade de ganhar a Copa, não discutir dinheiro. Mas já tinham cultura maior do futebol, entendiam que não podiam ser enganado sobre algo que tinham direito. Então eles lutaram muito para ver o contrato. E ficou aquele clima de hostilidade, de desconfiança, sem transparência que ficou marcada na foto antes da viagem para a Itália.

Maturidade de Romário

– Romário nos encontrou em Madri. Eu era um dos mais próximos e ele, tinha convivido com ele desde os 15 anos de idade. Ele foi muito maduro, chegou, estavam todos no quarto, ele disse “fiquem bem tranquilos, tenho consciência do meu problema (recuperava-se de lesão). Se eu não jogar essa Copa, eu jogo a outra. Não tem problema”. A opção da permanência dele lá, mesmo sendo dúvida, foi do grupo, da comissão técnica, do departamento médico. Não foi ele que impôs. As pessoas abdicaram de decisão final e levaram para definir mais na frente. Acabaram definindo com o último amistoso, quando a gente tinha que entregar a relação final. o Romário acabou indo, mas ele não esteve nunca próximo de possível plenitude física. Talvez se houve erro foi ali em Madri, que devíamos tê-lo cortado.

Distância de Teixeira

– Pensei em sair porque já nas eliminatórias era muito complicado. Classificamos naquele jogo com o Chile, do foguete do Rojas. Ali, depois da classificação e da conquista da Copa América, o motorista do Ricardo diz que ele quer falar comigo. Ele estava no estacionamento. Fui falar com ele, me deu abraço, não foi nem no vestiário. Tinha distanciamento muito grande ali. Isso me gerava insegurança.

A confissão de Maradona

– Na saída do campo, depois da derrota, eu estava ao lado do Careca me dirigindo ao vestiário. Maradona saiu de onde ele estava, veio, abraçou o Careca e disse “Antonio, não fique triste porque nós não vencemos, vocês que perderam”. Era como quem diz, seu time é melhor do que o nosso. Achei aquilo tão grandioso, primeiro pelo afeto que ele tinha pelo Careca e pela compreensão do jogo. Realmente o Brasil fez um jogo fantástico. A seleção argentina tinha muito mais problema do que a gente e chegou na final. Se a gente ganha a gente se rearrumava todo e seria campeão do mundo. Tínhamos qualidade excepcional.

Careca, Maradona e Alemão foram campeões juntos no Napoli: Diego mandou a seleção brasileira de volta para casa e foi vice-campeão — Foto: Divulgação/Site Oficial do Napoli

Defesa de Careca

– Foi muito injusto o tratamento ao Careca também na época Botaram na conta dele, que ele era mercenário. Ele tinha experiência de 1986 e eu o procurei para fazer parte de discussões de premiação. Ele disse: “Paulo, me tira dessa, não quero isso. Estou aqui com outro propósito”. E botaram no colo dele essas coisas Nunca participou dessa discussão. Diga-se de passagem ele era um jogadoraço e que sujeito bacana, que sujeito especial.

Grupo “europeu”

– Boa parte dos jogadores eram mais experientes, pessoas que tinham entendimento, que saíram daquela coisa de que sendo jogador não tem visão maior. Eles queriam que fossem entendidos, tinham compreensão, grupo que começava a ter voz, diferente de outras seleções. Aquele grupo merecia ser campeão do mundo, digo com todas as letras. Mas não sei quem é que não tinha merecimento. Porque aquele jogo da Argentina acho que a gente não venceu pelas energias, por todos problemas que aconteceram. Aquilo foi mostrado com muita sabedoria, pelas coisas maiores, acima da gente. Não tínhamos merecimento necessário.

Ruggeri marca Muller. Ao fundo, Alemão acompanha o lance — Foto: Allsport UK /Allsport

Maradona saiu com uma camisa do Brasil em 1990. Antes, conversou com Careca na beira do campo — Foto: Allsport UK /Allsport

A bronca de Lídio

– A presença do Filé (fisioterapeuta Nilton Petroni, levado por Romário) causou controvérsia. Lídio ficou muito reativo, porque ele (Filé) começou mesmo a tratar de todos na concentração. No final começou a se entender que não tinha outro jeito. Os jogadores procuravam ele, tinha um vanguardismo muito grande. Foi divergente da maioria dos médicos de clubes. Foi figura extremamente emblemática no futebol. Ele é um revolucionário e brigou contra tudo e contra todos. (E o Romário não gostava do Lídio?) Isso é fato. É real. E contaminou todo mundo.

Ficha técnica Brasil 0 x 1 Argentina

Local: Estádio Delle Alpi (Turim), Itália

Data: 24 de junho de 1990

Cartões amarelos: Monzón, Giusti, Ricardo Rocha, Mauro Galvão e Goycochea.

Cartão vermelho: Ricardo Gomes.

Público: 61.381

Árbitro: Joel Quiniou (França)

Auxiliares: Alexey Spirin (URSS) e Pierluigi Pairetto (ITA).

Gol: Caniggia, aos 35 minutos do segundo tempo.

Brasil: Taffarel, Ricardo Rocha, Mauro Galvão (Silas) e Ricardo Gomes; Jorginho, Dunga, Alemão (Renato Gaúcho), Valdo e Branco; Careca e Muller. Técnico: Sebastião Lazaroni

Argentina: Goycoechea, Simon, Ruggeri, Monzon e Olarticoechea; Giusti, Basualdo, Burruchaga e Maradona; Troglio (Calderón) e Caniggia. Técnico: Carlos Bilardo.

Fonte: Globo Esporte

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