Fim do New START acelera corrida nuclear e amplia risco global, dizem analistas

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O vencimento do tratado New START, nesta quarta-feira (4), deixou Estados Unidos e Rússia — as duas maiores potências nucleares do mundo — sem qualquer limite formal para produção, posicionamento e uso de ogivas atômicas. Para especialistas em segurança internacional, o cenário inaugura uma nova fase de corrida armamentista nuclear e aumenta significativamente a instabilidade global.

Assinado em 2010, o New START restringia a até 1.550 ogivas nucleares prontas para uso por cada país, além de impor limites a mísseis, bombardeiros estratégicos e sistemas de lançamento. O acordo também previa mecanismos de inspeção e transparência considerados fundamentais para evitar uma escalada nuclear desde o fim da Guerra Fria.

Com o fim do tratado, analistas ouvidos pelo g1 afirmam que o mundo entra em um período de maior incerteza, marcado pela desconfiança entre potências e pela tendência de ampliação dos arsenais nucleares.

Fim do tratado encerra último freio entre EUA e Rússia

Segundo o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense e pesquisador de Harvard, Vitelio Brustolin, o New START funcionava como um mecanismo de administração da rivalidade entre Washington e Moscou.

“O fim do New START remove o último freio institucional que ainda continha essa corrida armamentista. Ele era um pilar do equilíbrio estratégico, e sua ausência muda completamente o ambiente de segurança mundial”, avaliou.

Para o pesquisador, sem o tratado, cada país passa a planejar suas forças nucleares considerando o pior cenário possível, o que tende a acelerar investimentos em novas ogivas e tecnologias militares.

China muda equilíbrio e pressiona sistema de não proliferação

Especialistas apontam que a rápida expansão nuclear da China foi decisiva para o colapso do acordo. Segundo dados do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (Sipri), Pequim produz cerca de 100 novas ogivas por ano desde 2023 e já possui ao menos 600 armas nucleares.

A ascensão chinesa, segundo analistas, deslocou o foco estratégico dos EUA, que passaram a considerar insuficiente um tratado bilateral que não inclua o país asiático. O presidente norte-americano Donald Trump defende que qualquer novo acordo de controle de armas nucleares inclua a China, enquanto o presidente chinês Xi Jinping afirma que Pequim não precisa aderir, já que EUA e Rússia mantêm arsenais muito maiores.

Para o professor Gunther Rudzit, da ESPM, esse impasse consolida a entrada do mundo em uma “terceira era nuclear”, marcada por arsenais crescentes e ausência de confiança entre líderes globais.

Proliferação nuclear pode atingir outros países

O impacto do fim do New START não deve se limitar às grandes potências. Analistas alertam que o novo cenário pode estimular outros países a buscar armamentos nucleares como forma de dissuasão. Na Europa, Alemanha, Polônia e Ucrânia já deram sinais de reavaliar suas políticas de segurança. Fora do continente, Japão e Coreia do Sul também aparecem no radar de especialistas.

Além disso, alianças estratégicas, como a aproximação entre Arábia Saudita e Paquistão, reforçam o temor de acesso indireto a armas nucleares.

Tecnologia e IA ampliam riscos

Outro fator que preocupa especialistas é o avanço tecnológico, especialmente o uso de Inteligência Artificial em sistemas militares. Segundo Rudzit, mísseis hipersônicos e sistemas automatizados reduzem o tempo de reação humana, aumentando o risco de decisões catastróficas.

“Quanto mais armas nucleares existirem, maior a chance de um erro ou de uma decisão irracional levar a consequências irreversíveis para a humanidade”, alertou.

O fim do New START marca, assim, uma mudança profunda no equilíbrio estratégico global e reforça os temores de uma escalada nuclear sem precedentes nas próximas décadas.

Outras análises sobre geopolítica internacional e segurança global podem ser conferidas no Portal Integração.

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