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CrônicasOeiras

Herdeiro do céu

A minha mãe, Aldenora Campos, tinha muitos amigos, compadres, afilhados. Era generosa, acolhedora…

Certa feita, Manoel Fernandes, apelidado de Chicos (só pronunciava as palavras no plural) ou Macacaola (aglutinação de macaco e maricola) em face de sua compleição física e gestos efeminados, o que muito lhe chateava. Terrível bullying, como se diz hoje. Exibia largo sorriso de dentadura postiça. Língua vermelha. Olhos arregalados. Usava um quepe de marinheiro e uma bolsa de mulher. Figura agradável.

Morador da localidade Malhada Real. Vinha à cidade montado num jumento encangalhado com par de jacás.

Num dia de feira, apareceu na casa dos meus pais perto da hora do almoço, pois, como habitual, veio pedir a bênção à minha genitora.

Mamãe passou a puxar conversar com referido desassisado. O papo foi se alongando e papai, Ditinho Reis, sentado à mesa, faminto, zangado, precisava voltar para a sua labuta na Farmácia.

Antes do almoço ser servido, mamãe lhe entregou um prato feito do tamanho do Morro do Leme que o devorou apressadamente. Bebeu quase uma jarra d’água gelada.

Quando ia se retirando, Dona Aldenora disse-lhe:  — Vá em paz, filho de Deus, herdeiro do céu, membro da comunidade!

Sentindo-se prestigiado, Chicos retornou para agradecer minha mãe e se ajoelhou. Cena inusitada.

O meu pai, resmugou: – Este negro filho da puta sabe lá o que é comunidade! — Sei sim, seu Ditinho, o Padre João de Deus me ensinou, respondeu.

Nesta hora mamãe demonstrou desagrado com seu marido e pediu desculpas ao seu afilhado afetivo.

 

Por Carlos Rubem

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