Uma rede de perfis que utiliza personagens criados por inteligência artificial para simular médicos tem ganhado espaço em plataformas digitais ao divulgar receitas caseiras e tratamentos sem respaldo científico. Os conteúdos, publicados principalmente em redes sociais e aplicativos de vídeo, alcançam milhões de visualizações e servem como porta de entrada para a comercialização de produtos apresentados como soluções para diversos problemas de saúde.
Os vídeos reproduzem a imagem de profissionais da saúde vestindo jalecos e apresentando supostas orientações médicas. Entre as promessas estão receitas para combater gastrite, ansiedade, catarata e outras doenças, muitas vezes acompanhadas por afirmações de que tratamentos convencionais seriam desnecessários.
Especialistas consultados na reportagem classificam as informações divulgadas como enganosas. Segundo pesquisadores que monitoram o fenômeno, os conteúdos costumam misturar fatos reais com alegações sem comprovação para aumentar a credibilidade e estimular o compartilhamento entre usuários.
O crescimento dessas publicações está ligado ao avanço das ferramentas de inteligência artificial, que reduziram os custos de produção e facilitaram a criação de personagens virtuais. Com isso, pessoas sem formação na área da saúde conseguem produzir vídeos em grande escala e alcançar audiências expressivas.
O modelo de negócio vai além das visualizações. Após atrair seguidores nas redes sociais, os criadores direcionam o público para grupos em aplicativos de mensagens, onde promovem produtos e tratamentos alternativos. Entre os itens anunciados estão suplementos e substâncias vendidas como curas para diferentes enfermidades.
Levantamentos realizados por pesquisadores apontam que conteúdos relacionados a falsas terapias para doenças como diabetes e autismo acumulam dezenas de milhões de visualizações em grupos digitais da América Latina e do Caribe. O objetivo, segundo os estudos, é transformar a desinformação em uma atividade lucrativa baseada na exploração de medos e dúvidas da população.
Após questionamentos sobre os materiais identificados, plataformas como TikTok e YouTube informaram que possuem políticas contra desinformação em saúde e que removem conteúdos que violem suas regras. Algumas páginas citadas foram retiradas do ar ou perderam acesso a programas de monetização.
Diante do aumento desse tipo de publicação, o Conselho Federal de Medicina anunciou o desenvolvimento de uma ferramenta de inteligência artificial para rastrear conteúdos potencialmente nocivos à saúde. A iniciativa deverá auxiliar na identificação de possíveis infrações e encaminhar casos para análise dos conselhos regionais e autoridades competentes.



