A aprovação provisória do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, anunciada nesta sexta-feira (9), provocou reações imediatas e contrastantes entre governos, empresários e produtores rurais do continente europeu. Enquanto líderes políticos celebraram o avanço de um tratado negociado há mais de duas décadas, agricultores protestaram em diversos países contra possíveis impactos econômicos e ambientais.
Governos europeus comemoram avanço do tratado
Na Alemanha, o chanceler Friedrich Merz classificou o acordo como um “marco histórico” da política comercial europeia. Segundo ele, o tratado fortalece a posição da União Europeia em um cenário global considerado instável.
“O acordo UE-Mercosul é um marco na política comercial europeia e um forte sinal da nossa soberania estratégica e capacidade de ação. Isso é bom para a Alemanha e para a Europa”, afirmou.
Na Áustria, a ministra das Relações Exteriores Beate Meinl-Reisinger também celebrou a formação de uma maioria favorável dentro do bloco europeu. Para ela, o momento exige que a Europa busque novos parceiros comerciais diante das mudanças na ordem mundial.
Agricultores protestam contra impactos no setor rural
Em sentido oposto, produtores rurais foram às ruas para demonstrar insatisfação. Na Polônia, agricultores protestaram em Varsóvia contra a abertura do mercado europeu a produtos agrícolas do Mercosul. Já na Bélgica, rodovias foram bloqueadas com tratores e fogueiras, em atos semelhantes aos registrados em crises anteriores entre o campo e as instituições europeias.
O principal temor do setor é a entrada de alimentos mais baratos, especialmente carne bovina, produzidos sob regras ambientais diferentes das exigidas na União Europeia, o que poderia pressionar preços e reduzir a renda dos agricultores locais.
Comissão Europeia defende acordo como estratégico
A Comissão Europeia e países favoráveis, como Alemanha e Espanha, defendem que o tratado vai além do comércio agrícola. Para o bloco, o acordo com o Mercosul é visto como uma estratégia para reduzir a dependência econômica da China e ampliar o acesso a matérias-primas estratégicas, como o lítio, essencial para a transição energética.
Segundo a Comissão, o acordo pode eliminar mais de 4 bilhões de euros por ano em tarifas sobre exportações europeias e permitir que empresas da UE disputem contratos públicos nos países do Mercosul em igualdade de condições com fornecedores locais.
Críticas ambientais e resistência da França
Organizações ambientalistas também criticaram o acordo. A ONG Amigos da Terra classificou o tratado como “devastador para o clima” e alertou para o risco de estímulo ao desmatamento em regiões como a Amazônia, apesar das cláusulas ambientais previstas no texto.
A França segue como principal opositora do acordo. Antes da aprovação provisória, o presidente Emmanuel Macron afirmou que o tratado é “de outra época” e citou estudos da própria Comissão Europeia que indicam impacto de apenas 0,05% no PIB do bloco até 2040.
Mesmo com a inclusão de cláusulas de salvaguarda, que permitem suspender importações agrícolas em caso de desequilíbrio de mercado, o governo francês confirmou que votará contra a assinatura.
Próximos passos do acordo UE-Mercosul
Com a aprovação provisória, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, está autorizada a assinar formalmente o acordo na próxima segunda-feira (12), no Paraguai.
A assinatura, no entanto, não encerra o processo. O tratado ainda precisará ser ratificado pelos parlamentos nacionais da União Europeia e pelos países do Mercosul, o que indica que o debate político, econômico e social sobre o acordo deve continuar nos próximos meses.








