O evento durou três dias e contou com desfiles, gastronomia, artes visuais e espaço para vendas
Depois de dois anos sumido do calendário das semanas de moda brasileira, o Rio de Janeiro voltou a dar as caras. O Rio Moda Rio aconteceu de terça até ontem, no Píer Mauá e adjacências, área portuária revitalizada por conta da Olimpíada. Assim como a região, o evento também está de roupa nova.
Nomenclaturas de estações do ano foram abolidas e grande parte das coleções apresentadas esteve disponível para venda no local. O acesso, diferentemente da maior parte das semanas de moda do país, foi a partir da venda de ingressos (R$ 65 a inteira e R$ 32,50 a meia).

Rio Moda Rio
junho/2016
foto: Marcelo Soubhia/FOTOSITE
Nos desfiles, a tentativa de ir além do formato tradicional rendeu performances mais instigantes, como foi o caso da Mara Mac e do baiano estreante Guto Carvalhoneto. “O desfile é a ópera do estilista. O que tá na arara do ateliê pode ser mostrado de outra forma, com liberdade e licença poética. O mais importante é ver na passarela a magia que aquilo pode proporcionar”, diz ele.
As performances contaram com curadoria do artista visual Gringo Cardia, que já assinou capas de CDs de Daniela Mercury (Feijão com Arroz e Canibália) e o palco do espetáculo Ovo do Cirque du Soleil. “Fui convidado pela direção do evento para fazer uma consultoria criativa junto aos estilistas e marcas para incentivá-los a quebrar os parâmetros normais de desfile e fazer apresentação de conceitos baseados em performances e atitudes”, explica o diretor de arte. Outras marcas, como Ivan Aguilar, Maria Filó e Osklen, levaram o público para lugares como o Museu do Amanhã e o Palácio Tiradentes, sede da Assembleia Legislativa do estado do Rio.
Fora da passarela
Além de desfiles, o evento contou com 47 estandes de venda direta ao público, entre o espaço do coletivo Experimente (criadores independentes) e as lojinhas de marcas locais. Houve ainda shows de nomes como Johnny Hooker e Tulipa Ruiz e mesas de bate-papo com gente como Marcos Costa, maquiador oficial da Natura, e a escritora Clara Averbuck.
O evento é iniciativa dos empresários Rodolfo Medina e Duda Magalhães, do Rock in Rio, e Luiz Calainho, da Feira Art Rio, com curadoria do estilista Carlos Tufvesson. Confira o que vimos de mais legal por lá.
Abertura
O evento homenageou grifes cariocas dos anos 80, como Yes, Brazil, Company, Maria Bonita e George Henri e também lembrou os mortos no ataque à boate gay Pulse, em Orlando (EUA). Um telão de 30 metros exibiu frases contra a homofobia e os dizeres Somos Todos Orlando.
A apresentadora Xuxa Meneghel foi a estrela da noite, com um top transparente, cabelos longos cacheadíssimos e bota branca, na participação da Yes, Brasil. A atriz Silvia Pfeifer, contemporânea dela de desfiles, participou no momento do estilista George Henri. A homenagem às outras duas grifes aconteceu na algazarra de 50 modelos na passarela, com chuva de balões metalizados.
Lino Villaventura
Após quase 20 anos da sua última apresentação na cidade, ainda na época do Fashion Rio, o cearense Lino Villaventura levou para a passarela um desfile poético em homenagem ao Rio de Janeiro, cheio de pedrarias bordadas sobre transparências. 
Mara Mac
Inspirada pelo oceano, a Mara Mac arrasou na apresentação. O desfile, dirigido pela atriz Bia Lessa, começou com uma fala do físico Luiz Alberto Oliveira, curador do Museu do Amanhã, e com a pesquisadora de cibersegurança Natasha Felizi caminhando nua sobre folhas secas que cobriam a passarela.
Uma escavadeira ergueu montinhos de vegetação morta e um trecho de um ensaio da filósofa alemã/judia Hannah Arendt foi lido no meio da apresentação. No fim, duas mulheres nuas se balançavam, penduradas pelo teto do galpão. 
Guto Carvalhoneto
Nascido em Paulo Afonso e criado em Rodelas, Guto foi o único baiano na programação do evento. Estreante nas passarelas, cinco anos depois de lançar de sua marca, apresentou uma coleção com 42 peças, todas numeradas, com uma performance chamada Primeiro Grito, definida pelo próprio estilista como uma “esquizofrenia criativa”.
Na abertura, uma videoinstalação sobre duas camisas brancas gigantes deu conta de sua maior referência: o sertão, mais especificamente um varal rústico de arame farpado com roupas brancas de algodão penduradas. A isso tudo, misturou-se a obra da fotógrafa americana Genevieve Naylor, que retratou o cotidiano do Rio de Janeiro nos anos 40.
A maior parte das roupas era branca, preta, cinza e em tons terrosos discretos. Pontualmente, houve cores como laranja e amarelo-mostarda. Os tecidos usados foram algodão, seda, linho, viscose e muita renda.
Quanto às formas, grande variedade: esculturais, fluidas, amplas, assimétricas, justas, geométricas. Um dos looks, de nome Anunciação dos Cabritos, trazia vários sinos presos à saia e um cajado. Outro, a “burca”, cobria o corpo da modelo dos pés à cabeça, mas por ser todo recortado, deixava-a quase que apenas de calcinha.
No cabelo da maior parte do casting, o penteado imitava os panos enrolados nas cabeças das mulheres sertanejas para carregar tachos e latas de água. Uma das poucas exceções foi a artista Carô Rennó, completamente careca por ser portadora de alopecia universal.
Patricia Vieira
Toda trabalhada nos retalhos de couro, a carioca Patricia Viera apostou em geometria e bordados e se inspirou nos mosaicos de Paulo Werneck, em Brasília. 
Martu
Também estreante, é a grife da estilista carioca Marta Macedo. Apresentou roupas de festa com glamour, pegada rock’n’roll, franjas esvoaçantes e estampas inspiradas na rigidez geométrica do paisagista e arquiteto Burle Marx. Ela contou com a luxuosa curadoria de Dudu Bertholini.

Fonte: Correio 24 Horas





