A Amazônia brasileira perdeu 14% da vegetação nativa entre 1985 e 2023, o equivalente a 553 mil km², segundo levantamento do MapBiomas. Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade de São Paulo indica que o desmatamento e as mudanças climáticas globais têm ampliado a severidade das secas e aumentado em 2 ºC a temperatura do bioma entre 1985 e 2020.
A análise, publicada na revista Nature, revisou 35 anos de dados sobre cobertura vegetal, chuvas e temperaturas. Os cientistas dividiram a floresta em 29 blocos de 300 km por 300 km e cruzaram informações com imagens de satélite que permitiram detalhamento de até 30 metros. Os resultados mostram que o desmatamento responde por 74,5% da redução das chuvas e 16,5% do aquecimento da floresta na estação seca.
Atualmente, a Amazônia apresenta perda média de 19% da cobertura nativa, com áreas que chegam a 80%. Os pesquisadores alertam que, mantido o ritmo atual de desmate e emissões globais, a região pode enfrentar extremos climáticos mais intensos já em 2035. O impacto é sentido inclusive na produção agrícola, com a chamada safrinha registrando quedas em algumas localidades. Segundo os dados, a seca aumenta, em média, 12 dias a cada década.
O professor Marco Franco, do Instituto de Astronomia da USP, destacou que o equilíbrio do ciclo hidrológico está comprometido. Para ele, grandes empreendimentos, como mineração e usinas, podem agravar a instabilidade. O pesquisador Luiz Machado acrescentou que a mensuração inédita dos impactos abre caminho para maior cooperação entre governos.
Os dados revelam ainda que a redução anual das chuvas chega a 21 milímetros durante a seca, sendo 15,8 mm diretamente ligados ao desmatamento. A influência varia por região: áreas com cobertura florestal preservada sofrem mais com emissões industriais globais, enquanto regiões mais desmatadas, como o sudeste do Pará, sentem de forma intensa a perda da vegetação.
O próximo passo da equipe será projetar cenários até 2100. Além de comprovar a relação entre desmatamento e mudanças climáticas locais, o estudo oferece parâmetros que poderão ser usados em pesquisas sobre biodiversidade e impactos em ecossistemas específicos.
Fonte: Conecta Piauí.







