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Internacional

Raiva contra a Igreja católica está longe de se extinguir nos EUA

Trinta e cinco anos de impunidade. Esse foi o tempo entre a primeira denúncia de um seminarista contra o ex-arcebispo de Washington, Theodore McCarrick, e sua demissão, no ano passado

A publicação de um relatório do Vaticano sobre um ex-cardeal americano acusado de crimes sexuais reacendeu a ira das vítimas contra a Igreja católica nos Estados Unidos, acusada de ainda não ter assumido todas as suas responsabilidades.

Trinta e cinco anos de impunidade. Esse foi o tempo entre a primeira denúncia de um seminarista contra o ex-arcebispo de Washington, Theodore McCarrick, e sua demissão, no ano passado, aos 88 anos, segundo o relatório da Santa Sé publicado na terça-feira.

“Como vítima, é sempre repugnante”, reagiu Mark Rozzi, um legislador da assembleia da Pensilvânia, estuprado por outro padre na pré-adolescência.”É de partir o coração para as vítimas ver que eles preferem acreditar nesses predadores do que neles.”

Depois de uma longa lei do silêncio, a Igreja Católica americana tem sido regularmente contestada publicamente nas últimas duas décadas por casos de abusos sexuais e por encobri-los.

O último gesto de transparência, iniciado pelo papa Francisco, é apreciado, mas “o relatório me parece culpar principalmente homens que já morreram”, disse Zach Hiner, diretor-executivo da rede Snap de apoio às vítimas.

Segundo ele, alguns nomes foram omitidos “porque ainda estão em seus cargos”.

Em 2002, a Igreja Católica nos Estados Unidos adotou regulamentos internos que preveem a comunicação sistemática aos tribunais em caso de suspeitas, abandono de acordos de confidencialidade e sanções internas.

Desde então, os abusos relatados diminuíram significativamente.

No entanto, “a conferência episcopal (USCCB) se comporta como se fossem escândalos antigos, algo que não acontece mais hoje”, mas casos recentes, especialmente aqueles que ocorreram em Nova Orleans entre 2013 e 2015 e em Michigan em 2013, mostram que não é assim “, enfatiza Zach Hiner.

O chefe do Snap lembra que a idade média em que as vítimas de agressão sexual se declaram como tal é de 52 anos, por isso costuma haver um efeito de atraso.

“Traição”

Para compensar a demora entre os fatos alegados e as denúncias, vários estados recentemente prorrogaram o prazo de prescrição para esses crimes.

Alguns, como Nova York, chegaram a abrir uma janela por alguns meses que permitia às supostas vítimas iniciar processos judiciais, independentemente da data dos supostos fatos. Mais de 3.000 pessoas se beneficiaram com essa opção.

A medida visa combater a impunidade de centenas de padres sancionados, que normalmente foram afastados da Igreja, mas nunca foram identificados ou acusados em juízo até, finalmente, serem cobertos pela prescrição.

Mark Rozzi espera trazer essa janela para a Pensilvânia no próximo ano. Para ele, a única maneira de chegar ao coração da Igreja é atacando seu bolso.“A única coisa que a Igreja Católica sempre amou foi o dinheiro”, diz ele.

Essa nova onda de processos poderia aumentar as despesas por danos, juros e outras indenizações para mais de quatro bilhões de dólares no total desde o início dos anos 1980.

Declarando-se incapazes de cumprir suas obrigações financeiras, pelo menos 11 dioceses foram colocadas sob proteção nos últimos dois anos, segundo o site Bishop Accountability.

“Na maioria das vezes é falso”, contesta Mark Rozzi.

Eles “transferem o dinheiro para outro lugar para proteger seus bens” e não compensar as vítimas. De acordo com o independente Pew Research Center, a população católica é, entre as principais religiões, a que diminui mais rapidamente nos Estados Unidos.

“A traição de sua confiança” sofrida por membros da Igreja Católica “atravessou várias gerações”, explica Stephen White, diretor do Projeto Católico, iniciativa da Universidade Católica dos Estados Unidos.

“Restaurar a confiança abalada levará décadas”, acrescenta.

E apesar de a associação CHILD USA revelar, em relatório publicado em outubro, que a implementação foi desigual, insuficiente e prejudicada por conflitos de interesse, muitas dioceses buscam aprimorar suas práticas para melhorar a transparência, mostrando-se mais vigilante e protegendo melhor as supostas vítimas.

“Estão começando a perceber que, se não começarem a fazer as coisas direito, vão desaparecer”, diz Mark Rozzi. “Mas pode ser tarde demais.”

“Tenho esperança e confiança”, diz Zach Hiner, que afirma confiar em suas conversas com os paroquianos, “que tentam fazer sua Igreja avançar”. “Pode não ser tão rápido quanto gostaríamos”, admite, especialmente devido ao envelhecimento e à falta de renovação da hierarquia eclesiástica, “mas está em andamento”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: Agência France-Presse

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