As dificuldades em ser mãe e universitária

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Alice Lacerda e a filha Sofia – Foto: Arquivo Pessoal

Alice Lacerda, de 20 anos, cursa jornalismo na UFPI. Ela é mãe da Maria Sofia, de 6 meses. Desde os dois meses de vida, a bebê vai todos os dias à universidade com a mãe, porque Alice não quer interromper a amamentação da criança e nem deixar de acompanhar as atividades do curso. Mãe e filha se deslocam à universidade de ônibus. São duas conduções e duas horas de viagem todo dia. Enfrentam calor, lotação e às vezes a falta de sensibilidade de quem não lhes cede assento.

Alice, a bebê Maria Sofia, e os colegas de turma – Foto: arquivo pessoal

Alice conta que no ambiente da sala de aula professores e colegas são receptivos e dão suporte à presença quase silenciosa da Maria Sofia.

“ Agora que Maria Sofia está maiorzinha eu recebo alguma ajuda dos meus amigos. Aqui na universidade eu me sinto à vontade, enquanto eu estou em sala de aula. A maioria dos professores é bem receptiva, eles brincam com ela, eles compreendem bem a questão das faltas e são flexíveis quanto às atividades por causa da Maria Sofia”.

Porém, nos espaços abertos da universidade, Alice ainda enfrenta olhares atravessados de pessoas que se incomodam com a amamentação da Maria Sofia. Mas a maior dificuldade mesmo é a ausência de fraldário nos banheiros e melhores condições para higienizar a bebê.

“No restante da universidade é um pouco complicado, porque não tem fraldário, não tem um banheiro que a gente possa entrar e pra que eu possa trocar tranquila a fralda da Maria Sofia ou que eu possa dar um banho nela se estiver muito quente. Quando ela está sonolenta eu costumo trocar a fralda dela em cima da mesa mesmo. Tem professor que deixa, não diz nada. Mas não é confortável nem pra mim nem pra ela”, avalia.

A gravidez é um dos motivos que mais afastam as jovem brasileiras dos estudos, conforme uma pesquisa de 2016, realizada em parceria com Ministério da Educação, a Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI) e a Faculdade Latino-Americana de Ciências (Flacso).

18,1% das jovens entrevistadas, com idades entre 15 a 29 anos, apontaram a chegada do bebê como o principal motivo para deixar de frequentar escola ou faculdade. Entre meninos da mesma faixa etária, apenas 1,3% declararam que pararam os estudos pela mesma razão.

A lei garante que estudantes têm direito a quatro meses de licença-maternidade. Os trabalhos podem ser feitos em casa, o prazo de entrega aos professores pode ser maior e não há um número mínimo de disciplinas para cursar. Além disso, há compensação especial pelas faltas, em função de consultas, exames ou outras demandas com a criança.

Na UFPI, onde Alice estuda, não há de fato fraldário nos banheiros. A universidade informou à coluna que nunca recebeu esse tipo de demanda das estudantes. Na instituição, estudantes com baixa renda familiar, mães ( ou pais ) de crianças de até 3 anos e onze meses de idade, podem receber o benefício do auxílio-creche, no valor de 400 reais mensais, para ajudar na permanência das alunas na faculdade.

” Atualmente, a UFPI atende 56 bolsistas com o auxilio-creche em todos os campi. São 21 estudantes atendidas só no campus de Teresina. O benefício existe de 2013 e a principal contribuição é auxiliar na permanencia das mães no curso e que elas possam se formar com êxito na Universidade”, explica Jociara Lima, chefe do Serviço de Assistência Social da UFPI em Teresina. Também na UFPI há também uma serviço de amamentação em que mães estudantes e trabalhadoras recebem apoio na coleta e armazenamento de leite materno.

Com Miguel na UESPI

 

Miguel, aos dois meses, acompanhando a mãe nos estudos – Foto: Arquivo Pessoal

 

Manter os estudos e cuidar do filho Miguel no primeiro ano de vida da criança foi um desafio tremendo à estudante Joanna Marie, 21 anos, que engravidou durante o primeiro ano do curso de História na UESPI. Para não se atrasar ainda mais no curso, optou por não tirar licença-maternidade. Mãe-solo, morando com os pais à época, precisou com frequência levar Miguel à universidade. Lembra como foi difícil.

” Foi muito complicado levar esses anos de curso, porque eu sempre me senti em desvantagem com relação aos meus colegas. Enquanto num dia de provas, a preocupação deles era decidir o melhor horário pra estudar; a minha preocupação era que horas meu filho ia dormir, pra eu conseguir estudar. Eu só consegui chegar até aqui hoje pela enorme rede de apoio formada pela minha família e amigos, porque a instituição não oferece nenhum tipo de apoio, chamaria até de omissão. A universidade é um ambiente plural, onde há diversos tipos de pessoas, com suas realidades e universidade não te proporciona essa estrutura.”, declara.

Miguel e mãe Marie no Palácio do Pirajá – Foto: Arquivo Pessoal

 

Miguel, hoje com 4 anos, está na escola e não precisa mais acompanhar a mãe na universidade. As dificuldades vividas por Marie são compartilhadas por outras estudantes mães na UESPI, informa Marie, que integra o Diretório Central de Estudantes da universidade. Além da ausência de fraldário nos banheiros, ela diz que o DCE já apresentou à Universidade um dos grandes pleitos desse público: uma creche no instituição.

“Nós [DCE] tivemos uma conversa com o reitor e foi dito que se lançaria um edital para que as duas brinquedotecas existentes no Campus Torquato Neto fossem utilizadas [ como creche], mas, infelizmente, nós, mães, não conseguimos usufruir desse espaço na universidade. Não nos é data a devida atenção. Não atende à demanda de quem estuda e de quem trabalha na universidade.”, avalia.

Na UESPI, não existe um programa específico voltado à permanência de mães-universitárias e acolhimento a seus bebês. A Assessoria informou à coluna que esse público está contemplado por outras ações de assistência estudantil desenvolvidas na instituição, mas há não política individualizada em função da gravidez. A coluna ligou para Assessoria na tarde dessa segunda (12), para saber sobre a demanda da creche, mas o telefone só chamou.

 

Crianças brinca em atividades desenvolvida na Universidade Federal do RS – Foto: Ramon Moser/ SecomUFRGS

A demanda por creche é atendida em algumas instituições do país. A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), por exemplo, disponibiliza há 46 anos, creche na própria instituição para acolher filhos de servidoras e de alunas. As vagas são limitadas.

 

Maria Flor em faculdade particular

 

Já o relato da situação nas faculdades particulares vem da estudante Gabriella Mourão, de 32 anos, estudante de direto. Ela é mãe da Maria Flor e leva a bebê à faculdade desde que a menina tinha dois meses, hoje tem 4. A estudante também não tem como deixar a criança em casa e reveza com o marido, também aluno na mesma faculdade, os cuidados com a criança pra conseguir assistir às aulas e fazer provas. Também não quis interromper os estudos para ter um aproveitamento melhor no curso.

Gabriella conta que sempre recebeu apoio da administração da faculdade. “Assim que decidi que ia frequentar as aulas do curso com ela, informei ao coordenador do meu curso, e ele disse que não teria nenhum problema. Eu procurei me informar sobre o Estatuto da Mãe Estudante, que protege meu direito, para me precaver”, lembra. Destaca também que na faculdade há rampas que facilitam o deslocamento com o carrinho da bebê. “Porém seria muito bom se tivesse um espaço para amamentá-la e trocar as fraldas”, acrescenta.

A empatia dos colegas de turma é outro ponto fundamental. ” Às vezes não consigo anotar nada na sala de aula, porque fico com a Maria Flor no colo. Então, depois, eu pego as anotações com os colegas e faço cópias do assunto ministrado em aula”, finaliza.

Melhorias na infraestrutura nas universidades e apoio de professores e colegas de curso é fundamental para que mamães universitárias se sintam incluídas no ambiente acadêmico. Com o próprio nome diz, o acesso a esses espaços deve ser universal, a todos, democraticamente. E acolher mães e seus bebês é parte disso.

 

Fonte:cidade verde

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